segunda-feira, 16 de julho de 2012

ME LEMBREI DAS IDÉIAS DO IÇAMI TIBA.

"O sucesso e a felicidade não dependem somente de uma pessoa fazer o que gosta. Entendendo que esta pessoa seja competente, disciplinada, ética, criativa, com iniciativa e cidadã. O sucesso e a felicidade dependem também da pessoa saber lidar com o que não gosta. Pois o que a pessoa gosta traz também algo que ela não gosta. Se as pessoas largarem o que gostam por não saberem lidar com o que não gostam, elas vão restringindo cada vez mais os seus campos de ação. Pessoas de sucesso e felizes não têm portas fechadas à sua frente. Acompanhando os jovens percebo que eles são capazes de largar uma faculdade por não conseguir superar suas dificuldades com uma ou outra matéria, outros largam seus sonhos por não conseguir estabelecer uma estratégia de realização. Esses são algumas das conseqüências de uma educação muito permissiva que aceita que os filhos não cumpram suas tarefas até o fim. Os pais destes jovens tomaram para si a responsabilidade de deixarem os filhos fazerem o que tiverem vontade. Assim, deixaram de preparar os filhos para a vida. O sucesso não é o que a própria pessoa se apregoa. O sucesso é o reconhecimento que outras pessoas lhe dão. Felicidade é uma sensação interior que se aprende a desenvolver, curtindo o que tem, sem ficar chorando pelo que não tem..."
"Ao conviver com os bem mais jovens, com aqueles que se tornaram adultos há pouco e com aqueles que estão tateando para virar gente grande, percebo que estamos diante da geração mais preparada – e, ao mesmo tempo, da mais despreparada. Preparada do ponto de vista das habilidades, despreparada porque não sabe lidar com frustrações. Preparada porque é capaz de usar as ferramentas da tecnologia, despreparada porque despreza o esforço. Preparada porque conhece o mundo em viagens protegidas, despreparada porque desconhece a fragilidade da matéria da vida. E por tudo isso sofre, sofre muito, porque foi ensinada a acreditar que nasceu com o patrimônio da felicidade. E não foi ensinada a criar a partir da dor.

Há uma geração de classe média que estudou em bons colégios, é fluente em outras línguas, viajou para o exterior e teve acesso à cultura e à tecnologia. Uma geração que teve muito mais do que seus pais. Ao mesmo tempo, cresceu com a ilusão de que a vida é fácil. Ou que já nascem prontos – bastaria apenas que o mundo reconhecesse a sua genialidade.

Tenho me deparado com jovens que esperam ter no mercado de trabalho uma continuação de suas casas – onde o chefe seria um pai ou uma mãe complacente, que tudo concede. Foram ensinados a pensar que merecem, seja lá o que for que queiram. E quando isso não acontece – porque obviamente não acontece – sentem-se traídos, revoltam-se com a “injustiça” e boa parte se emburra e desiste.

Como esses estreantes na vida adulta foram crianças e adolescentes que ganharam tudo, sem ter de lutar por quase nada de relevante, desconhecem que a vida é construção – e para conquistar um espaço no mundo é preciso ralar muito. Com ética e honestidade – e não a cotoveladas ou aos gritos. Como seus pais não conseguiram dizer, é o mundo que anuncia a eles uma nova não lá muito animadora: viver é para os insistentes.

Por que boa parte dessa nova geração é assim? Penso que este é um questionamento importante para quem está educando uma criança ou um adolescente hoje. Nossa época tem sido marcada pela ilusão de que a felicidade é uma espécie de direito. E tenho testemunhado a angústia de muitos pais para garantir que os filhos sejam “felizes”. Pais que fazem malabarismos para dar tudo aos filhos e protegê-los de todos os perrengues – sem esperar nenhuma responsabilização nem reciprocidade.

É como se os filhos nascessem e imediatamente os pais já se tornassem devedores. Para estes, frustrar os filhos é sinônimo de fracasso pessoal. Mas é possível uma vida sem frustrações? Não é importante que os filhos compreendam como parte do processo educativo duas premissas básicas do viver, a frustração e o esforço? Ou a falta e a busca, duas faces de um mesmo movimento? Existe alguém que viva sem se confrontar dia após dia com os limites tanto de sua condição humana como de suas capacidades individuais?

Nossa classe média parece desprezar o esforço. Prefere a genialidade. O valor está no dom, naquilo que já nasce pronto. Dizer que “fulano é esforçado” é quase uma ofensa. Ter de dar duro para conquistar algo parece já vir assinalado com o carimbo de perdedor. Bacana é o cara que não estudou, passou a noite na balada e foi aprovado no vestibular de Medicina. Este atesta a excelência dos genes de seus pais. Esforçar-se é, no máximo, coisa para os filhos da classe C, que ainda precisam assegurar seu lugar no país.

Da mesma forma que supostamente seria possível construir um lugar sem esforço, existe a crença não menos fantasiosa de que é possível viver sem sofrer. De que as dores inerentes a toda vida são uma anomalia e, como percebo em muitos jovens, uma espécie de traição ao futuro que deveria estar garantido. Pais e filhos têm pagado caro pela crença de que a felicidade é um direito. E a frustração um fracasso. Talvez aí esteja uma pista para compreender a geração do “eu mereço”.

Basta andar por esse mundo para testemunhar o rosto de espanto e de mágoa de jovens ao descobrir que a vida não é como os pais tinham lhes prometido. Expressão que logo muda para o emburramento. E o pior é que sofrem terrivelmente. Porque possuem muitas habilidades e ferramentas, mas não têm o menor preparo para lidar com a dor e as decepções. Nem imaginam que viver é também ter de aceitar limitações – e que ninguém, por mais brilhante que seja, consegue tudo o que quer.

A questão, como poderia formular o filósofo Garrincha, é: “Estes pais e estes filhos combinaram com a vida que seria fácil”? É no passar dos dias que a conta não fecha e o projeto construído sobre fumaça desaparece deixando nenhum chão. Ninguém descobre que viver é complicado quando cresce ou deveria crescer – este momento é apenas quando a condição humana, frágil e falha, começa a se explicitar no confronto com os muros da realidade. Desde sempre sofremos. E mais vamos sofrer se não temos espaço nem mesmo para falar da tristeza e da confusão.

Me parece que é isso que tem acontecido em muitas famílias por aí: se a felicidade é um imperativo, o item principal do pacote completo que os pais supostamente teriam de garantir aos filhos para serem considerados bem sucedidos, como falar de dor, de medo e da sensação de se sentir desencaixado? Não há espaço para nada que seja da vida, que pertença aos espasmos de crescer duvidando de seu lugar no mundo, porque isso seria um reconhecimento da falência do projeto familiar construído sobre a ilusão da felicidade e da completude.

Quando o que não pode ser dito vira sintoma – já que ninguém está disposto a escutar, porque escutar significaria rever escolhas e reconhecer equívocos – o mais fácil é calar. E não por acaso se cala com medicamentos e cada vez mais cedo o desconforto de crianças que não se comportam segundo o manual. Assim, a família pode tocar o cotidiano sem que ninguém precise olhar de verdade para ninguém dentro de casa.

Se os filhos têm o direito de ser felizes simplesmente porque existem – e aos pais caberia garantir esse direito – que tipo de relação pais e filhos podem ter? Como seria possível estabelecer um vínculo genuíno se o sofrimento, o medo e as dúvidas estão previamente fora dele? Se a relação está construída sobre uma ilusão, só é possível fingir.

Aos filhos cabe fingir felicidade – e, como não conseguem, passam a exigir cada vez mais de tudo, especialmente coisas materiais, já que estas são as mais fáceis de alcançar – e aos pais cabe fingir ter a possibilidade de garantir a felicidade, o que sabem intimamente que é uma mentira porque a sentem na própria pele dia após dia. É pelos objetos de consumo que a novela familiar tem se desenrolado, onde os pais fazem de conta que dão o que ninguém pode dar, e os filhos simulam receber o que só eles podem buscar. E por isso logo é preciso criar uma nova demanda para manter o jogo funcionando.

O resultado disso é pais e filhos angustiados, que vão conviver uma vida inteira, mas se desconhecem. E, portanto, estão perdendo uma grande chance. Todos sofrem muito nesse teatro de desencontros anunciados. E mais sofrem porque precisam fingir que existe uma vida em que se pode tudo. E acreditar que se pode tudo é o atalho mais rápido para alcançar não a frustração que move, mas aquela que paralisa.

Quando converso com esses jovens no parapeito da vida adulta, com suas imensas possibilidades e riscos tão grandiosos quanto, percebo que precisam muito de realidade. Com tudo o que a realidade é. Sim, assumir a narrativa da própria vida é para quem tem coragem. Não é complicado porque você vai ter competidores com habilidades iguais ou superiores a sua, mas porque se tornar aquilo que se é, buscar a própria voz, é escolher um percurso pontilhado de desvios e sem nenhuma certeza de chegada. É viver com dúvidas e ter de responder pelas próprias escolhas. Mas é nesse movimento que a gente vira gente grande.

Seria muito bacana que os pais de hoje entendessem que tão importante quanto uma boa escola ou um curso de línguas ou um Ipad é dizer de vez em quando: “Te vira, meu filho. Você sempre poderá contar comigo, mas essa briga é tua”. Assim como sentar para jantar e falar da vida como ela é: “Olha, meu dia foi difícil” ou “Estou com dúvidas, estou com medo, estou confuso” ou “Não sei o que fazer, mas estou tentando descobrir”. Porque fingir que está tudo bem e que tudo pode significa dizer ao seu filho que você não confia nele nem o respeita, já que o trata como um imbecil, incapaz de compreender a matéria da existência. É tão ruim quanto ligar a TV em volume alto o suficiente para que nada que ameace o frágil equilíbrio doméstico possa ser dito.

Agora, se os pais mentiram que a felicidade é um direito e seu filho merece tudo simplesmente por existir, paciência. De nada vai adiantar choramingar ou emburrar ao descobrir que vai ter de conquistar seu espaço no mundo sem nenhuma garantia. O melhor a fazer é ter a coragem de escolher. Seja a escolha de lutar pelo seu desejo – ou para descobri-lo –, seja a de abrir mão dele. E não culpar ninguém porque eventualmente não deu certo, porque com certeza vai dar errado muitas vezes. Ou transferir para o outro a responsabilidade pela sua desistência.

Crescer é compreender que o fato de a vida ser falta não a torna menor. Sim, a vida é insuficiente. Mas é o que temos. E é melhor não perder tempo se sentindo injustiçado porque um dia ela acaba."

Por Eliane Brum da Revista Época


(Eliane Brum escreve às segundas-feiras na Revista Época.)

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Dois Pesos e Duas Medidas

Luna viu tudo rodar, queria correr mais do que suas pernas conseguiam, parecia que ia desmanchar como Amelie Poulain¹ naquele filme do Maravilhoso destino dela mesma, seu rosto flamejava, não sabia o que fazer e ainda como fazer. Poderia ser sua única e última chance, as árvores, carros, casas, passavam numa rapidez tão grande que tudo quase se tornava cinza, ela sentia suas pernas bambas, e uma fraqueza descomunal, se pudesse voltar atrás, se pudesse assumir para o mundo que sem ele não poderia viver.
O conhecera há cinco anos. Conhecer não, já que era tudo virtual. Mas havia algo nos dois que os ligava, as conversas, os conhecimentos adquiridos pela existência de ambos, a infância, os conselhos, a luta, eram mesmo reflexo um do outro. O que era diferente é que ela dada a aventureira não possuía muita coragem para viver de subjetividades, tinha em mente se estabilizar financeiramente e enxergava que no futuro, dali a uns bons anos, poderia existir a possibilidade de mudar de estado, talvez conhecer outros ares, sem começos inesperados, e sim recomeços, em outro lugar, equilibradamente. Ele, nisso, era diferente dela, Martin, imediatista, não era de esperar, se podia ir ia, com pouco dinheiro no bolso e fazendo bicos nas cidades que passava, já havia conhecido alguns países, e o Brasil do sul ao Norte, se ele não tinha certeza de quando morreria, viveria com profundidade, com voracidade em todos os dias de sua existência.
Ele sabia exatamente as reações que ela manifestaria nesta ou naquela ocasião. Na internet entravam em horários totalmente inversos, ele notívago só postava de madrugada e ela de dia no serviço. Ela custava a adivinhar-lhe a alma, se houvesse dois elementos que pudessem classifica-los, diria que ela poderia ser a terra, fecunda, sólida, palpável, e ele o ar, auspicioso, arredio, instável.
Um dia, depois de muitos meses sem se comunicarem, ele telefonou e eles conversaram praticamente a madrugada toda, ela ainda sonolenta não sabia se estava sonhando ou se estava acordada. Ele quis vê-la, quis participar do mundo real mesmo que por um breve instante. Mas ela sentiu medo, medo de que fosse um momento tão grandioso que a fizesse perder as estribeiras, que a fizesse enlouquecer depois que ele o ar resolvesse se dissipar. Enviou-lhe um torpedo, dizendo que ele sempre apareceu na vida dela quando quis, e foi embora quando pôde, que eles já sofreram muito juntos, talvez em outras vidas no baú de outras existências. Que os eventos ou mais provavelmente os aspectos do carácter dela interferiam no crescimento de uma nova vida deles. O momento requeria diligência e que ela garantiria seu crescimento se não errasse novamente. E que era por isso que ela não ia vê-lo, para não lançar expectativas baseado em alguém que não fosse ela mesma.            
Martin não esperava esta reação dela, primeiro ficou com raiva, depois ficou desesperançoso, se antes não acreditava na humanidade, agora acreditava ainda menos, seu coração parecia aumentar e diminuir numa desmensura tão infinita que se sentia sufocando, perdido no labirinto daquelas palavras.
É por isso que ela estava enlouquecida tentando alcançá-lo no aeroporto, é por isso que faltou chão aos seus pés quando avistou o avião no céu partindo, ela quis se dissipar dos ponteiros e voltar atrás, quis se dar uma chance, mas já era tarde demais, nada traria o tempo com Martin de volta. Perdeu os movimentos do seu corpo, sentiu vontade de chorar, se arranhar, e de morrer, a inconsciência tomou conta dela que viu o seu destino parecido com o da noiva de San Blas².
Ele não retornou e o imenso vazio se fez presente.

¹Amelie Poulain- Protagonista do Filme francês de 2001, Le fabuleux destin d'Amélie Poulain, vencedor do  oscar de melhor filme estrangeiro.
²Noiva de São Braz- Noiva protagonista da música En el Muelle de San Blas, da Banda Maná.
“As pessoas apaixonadas, em geral, se tornam  impacientes, perigosas. Perdem  o senso de perspectiva. Perdem  o senso de humor. Ficam  nervosas, tornam-se chatas, psicóticas. Podem  virar assassinas.”

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Diamante Bruto.


Acho que tenho respirado a minha literatura, como também uma espécie de Arte Fabril.
O receio também me invade quando nestes segundos não sei com coerência nada sobre minhas dicotomias, sei das incertezas do desuso medicamental. Sei que a minha nuca dói e que meu couro cabeludo me incomoda, uma espécie de dormência e de queimação.
Mas sinto ser eu aqui, intensa, desafiadora e só.
Sinto a inquietude do meu ser me eletrizar inteira, em um lugar em que nem eu mesma consigo alcançar inteiramente.
Sinto a minha mente se confundir, o meu processo, disposição e criatividade aumentar, e sei que mesmo sabendo da explosão dos sintomas, o tratamento não terá volta.
Preciso colocar para fora o não dito, o não imaginado, o não compreendido, porque como disse Maya Angelou “ Não há agonia maior doque carregar dentro de si uma história não contada.”
Para cada palavra escrita, uma esfolada na alma, mas não é assim que se lapidam os diamantes?

Imagem: internet
http://personalpilotblog.files.wordpress.com/2012/01/porta-se-abrindo-011.jpg

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012



Por um breve momento ao abaixar minha cabeça no banheiro analisei o que estava sentindo. Era arrependimento ou medo, não sei bem, por ter parado com a medicação há três meses. Mas esta é uma decisão sem volta.
Minha mente esta hoje como um campo de batalha.
Avistei-me caída no chão sem vontade ou resistência para levantar. Meu esforço é encontrar beleza na vida mas meu encanto e atração só se volta para a morte.
A crise quer vir... a depressão está ao meu lado, me olhando, tentando encontrar uma fenda para poder entrar em meu corpo e se alimentar de mim.
Só tenho a certeza de que não irei recuar, cansei de me esconder.
Não volto atrás, ei de enfrentá-la.